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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

AULA 1 - PERSÉPOLIS








     





         

  França - 2007
Dir. Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud.





PROTAGONISTAS



Marjane (com voz de Chiara Mastroianni, na versão original em francês)  Filha intelectuais  esquerdistas, Marji é uma garota iraniana, educada à moda européia. Desde criança demonstrava personalidade forte; depois adolescente revoltada, corajosa e desbocada. Estudou na  Europa. De volta para seu país, não sentia muita identificação com a sociedade local, apesar de amar seus parentes .




Mãe de Marjane (com voz de Catherine Deneuve, na versão original)Mulher de valores ocidentais, vê seu modo de vida transformado no regime dos aiatolás e revolta-se com isso.

Pai de Marjane (voz de Sean Penn, na versão americana): Intelectual de idéias modernas e família com tradição de militância em movimentos políticos que se opuseram tanto ao regime do xá como aos xiitas.


Avó de Marjane (voz de Gena Rowlands na versão americana) matriarca da família, fonte de humor e orientação moral para a pequena Marjane e também a encarnação do feminismo contido no filme.Para ela, a liberdade é um direito, por isso, desafia o mundo.




TRAMA E LINGUAGEM






Marjane Satrapi tinha nove anos quando seu país, o Irã, passou por uma revolução: o que era uma monarquia amiga do Ocidente virou uma república islâmica, regida por princípios religiosos bastante rigorosos e governada pelo aiatolá Khomeini, que fechou o país para o resto do mundo. Com a Guerra Irã-Iraque (1980 -88) é enviada, por seus pais, sozinha para estudar na Áustria.

É essa história bem pessoal, cheia de insegurança, saudade e solidão, que Marjane conta em "Persépolis", publicada no ano 2000 na forma de história em quadrinhos autobiográfica. O sucesso levou os quadrinhos às telas, numa animação produzida pela autora e pelo cineasta francês Vincent Paronnaud. Levou a Palma de Ouro em Cannes em 2007.



Os traços simples da animação ajudam a explicar, com uso de flashbacks e em preto-e-branco, a chamada Revolução Islâmica, que aconteceu há 37 anos e por que não é tão fácil a mudança para um país estranho, sem família, sem amigos, sem falar a língua.
Mesmo com o alívio de poder ir a festas, ouvir música alta e não precisar mais usar o véu obrigatório para cobrir a cabeça, a adolescente Marji se sente estranha diante de tantas pessoas que não entendem muito o que se passa no Irã. Apesar de tentar "pirar", experimentar drogas, sair com os mais doidos da escola e aproveitar a liberdade de ser uma teen, Marji nunca deixa de se sentir diferente, nunca esquece suas origens de enfrentamento político e indignação.
Assim, as mudanças da autora-personagem são um meio de contar a história da revolução e daquela garota, hoje com 45 anos, que questionou as convenções e conquistou o mundo.



UMA FALA DO FILME




Felizmente, no Liceu Francês de Viena eu conseguia entender os outros e ser entendida. Logo virei o centro das atenções dos marginais do Liceu. Minha nacionalidade e minha história o fascinavam Tinha visto uma revolução e uma guerra. E visto muita gente morta...Logo me integrei ao grupo...É verdade que no começo, foi meio difícil me adaptar. Mas depois de tudo, por que não?  Acabei me convencendo de que tinha achado o meu lugar entre os outros. Mas continuava sendo diferente deles. Certos aspectos da cultura ocidental continuavam misteriosos para mim.Era preciso que eu me instruísse. De Sartre a Bakunin, passando por Zweig e Freud, li tudo o que podia.  Mas entendi certas coisas que eu nunca entenderia. Eu estava muito confusa.Estava segura aqui, mas levava uma vida fútil enquanto os que eu amava viviam no inferno da Guerra. Por mais que eu tentasse, não me livrava do sentimento de culpa. Eu só queria viver como uma garota da minha idade.





UMA OPINIÃO


“Persépolis” é uma história simples contada de forma simples. Como nos quadrinhos de Marjane Satrapi, em que é baseado, o filme dirigido pela própria Satrapi e Vincent Paronnaud consiste essencialmente de uma série de desenhos em preto e branco, grossas linhas negras preenchidas por nuances de cinza.

Nesta era governada pela Pixar e por “Shrek”, é bom lembrar que as raízes da animação não estão numa técnica em particular, mas sim no impulso de dar vida a imagens estáticas. Mesmo com seu visual despretensioso, “Persépolis” é caloroso e surpreendente, com humor vivo e espírito independente. Seu retrato estilizado do mundo –- especialmente das ruas e prédios de Teerã e Viena –- transforma geografia em poesia.
Se “Persépolis” fosse baseado numa narrativa convencional em vez de uma história em quadrinhos, as memórias de juventude de Satrapi no Irã pré e pós revolucionário não seriam tão emocionantes e maravilhosas. Da mesma forma, se a adaptação cinematográfica fosse atuada de forma convencional, ela seria inevitavelmente menos mágica e real."



A.O. Scott , do New York Times( publicado em O Globo 28 de setembro 2007)


                                                 Aula 2 - Babel












México/França/EUA -  2006
Direção de Alejandro Iñarritu 


Drama sócio-político








     Protagonistas



Richard e Susan (Brad Pitt e Cate Blanchett): Casal americano em crise conjugal em viagem pelo Marrocos. O marido mostra-se muito dedicado e amoroso em meio à tragédia, que de certo modo os aproxima.

Ahmed e Youssef (Said Tarchani e Boubker At El Caid): pastores de cabras nas montanhas, são garotos comuns com interesses comuns para aquela idade (sexo e futebol, por exemplo). No começo escondem a responsabilidade pelo tiro mas depois assumem as consequências que os levam ao final trágico.

Amelia (Adriana Berraza): imigrante mexicana ilegal na Califórnia, trabalhava como babá dos filhos de Richard e Susan, quando ocorre o acidente. Tem uma ligação profunda com sua imensa família que estava do outro lado da fronteira. Apesar de cuidadosa, ela tem a má ideia de levar as crianças para o México.

Santiago (Gael Garcia Bernal): sobrinho de Amelia, faz o tipo malandro latino sem muita inteligência. Ao tentar fugir da polícia da fronteira com a tia e as crianças no carro, faz com que a mulher seja expulsa dos EUA.



Chieko (Rinko Kikuchi) Adolescente japonesa que vive em uma grande cidade com o pai, joga vôlei, sai com os amigos, mas é virgem e busca com ansiedade iniciar sua vida sexual. Apesar de bonita, ela é surda-muda e isso, em parte, dificulta suas intenções. 






 Trama e Linguagem


O filme mostra o desenrolar de quatro núcleos narrativos, a princípio distintos,  que ao final acabam por se relacionar de alguma maneira. As histórias ocorrem nas montanhas do Marrocos, na fronteira entre EUA-México em uma metrópole japonesa. Um “filme mosaico”, como se costuma dizer, em que cada sequência é uma peça do quebra cabeças, ficando plenamente compreensível somente nas últimas cenas, quando o círculo narrativo se fecha.





   O título remete a história da torre bíblica cuja construção foi impedida pelas desavenças entre os homens que falavam línguas diferentes. O filme é  falado em variados idiomas: inglês, francês, japonês, bérbere, árabe, língua japonesa de sinais e espanhol. Começando nos Estados Unidos, passando pelo Marrocos, México, Japão e regressando ao ponto de partida, Babel mostra-nos a vida e os dramas de quatro famílias; pessoas comuns, separadas por continentes, línguas e culturas mas unidas pelos acontecimentos. E nesse contexto, trata de temas contemporâneos importantes como o preconceito, a intolerância e a corrupção.

Núcleo 1 – Anwar e Yussef são dois garotos encarregados pelo pai de cuidar de suas cabras enquanto pastam-nas montanha; para se defenderem dos lobos, recebem um rifle. Quando treinavam tiro com a arma, um dos irmãos atinge um ônibus, ao longe na estrada, ferindo uma turista americana. O caso toma uma conotação de terrorismo islâmico e a polícia local é pressionada a investigar o caso, levando a um desfecho trágico.





Núcleo 2 – Um casal americano em crise conjugal faz uma viagem pelo deserto do Marrocos e a mulher é gravemente ferida por um tiro. O homem procura socorro para sua mulher, mas  são abandonados pelos próprios companheiros de excursão em uma pobre vila, perdida no meio do nada.
  



Núcleo 3 – Amélia cuida de 2 crianças, filhos de um casal(o mesmo do núcleo 2)  em viagem em San Diego, na Califórnia. Os patrões não voltavam de viagem e ela precisava ir ao México para o casamento da neta. Sem alternativa, ela leva as crianças e uma sucessão de problemas ocorrerão por causa dessa péssima ideia. 




Núcleo 4 – Apesar da deficiência auditiva, Chieko é uma adolescente que leva uma vida comum a qualquer garota da sua idade: pratica esportes, vai a barzinhos, sai com os amigos. Com os hormônios à flor  da pele, ela quer fazer sexo de qualquer maneira e se oferece a diversos homens que, no entanto, a rejeitam.


         Uma cena do filme


            No carro velho de seu sobrinho Santiago, Amélia atravessa a fronteira dos EUA com o México, trazendo também os filhos de seus patrões, Debbie e Mike.
            Santiago: É fácil entrar no paraíso.
            Debbie: Aqui é o México?
            Amélia: Sim, é o México.
            Mike: Mamãe disse que o México é muito perigoso!
            Santiago: É...é cheio de mexicanos!

            O carro segue pela periferia de Tijuana e as crianças veem da janela um mundo diferente em meio ao trânsito caótico, o comércio feito nas ruas, barracas de comidas estranhas, prostitutas e animais.





Uma opinião


Com personagens de etnias tão diversas e pelo título do filme fica fácil compreender a bandeira levantada por diretor e roteirista: o ataque ao preconceito e intolerância. Praticamente todos os problemas no filme decorrem de uma suposta tentativa de assassinato da personagem de Cate Blanchett, e que os Estados Unidos consideram um atentado terrorista. O bom roteiro de [Guillermo] Arriaga foca nos dramas pessoais de cada um de seus personagens, que apesar de serem esperados e nada originais não deixam de emocionar, e em determinados momentos causar revolta. Os diferentes idiomas falados são um símbolo para a falta de entendimento, as opiniões pré-concebidas e o fosso econômico e social que existe entre nações ricas e pobres. Este aspecto é ainda mais realçado pelo final do filme, quando os cidadãos de países desenvolvidos tomam caminhos diferentes daqueles dos países miseráveis.
(Fabio Nazaré, www.gaveteiro.com)


                          AULA 3  -  Laranja Mecânica                                          (Clockwork Orange)













EUA/Inglaterra – 1971
Direção: Stanley Kubrick 










Protagonistas


Alex DeLarge (Malcolm Mc Dowell) Jovem sociopata que rouba, estupra, espanca e escolhe pessoas aleatoriamente, para sua própria diversão. Líder da gangue que passa suas noites em orgias de drogas (moloko), sexo, violência e alta velocidade. É inteligente e gosta muito de música clássica, especialmente Beethoven ou, como ele o chama, "Ludwig van". Ao final do tratamento alternativo a que se submete, desenvolve uma repulsa ao seu antigo modo de vida e se auto proclama “curado”.



Mãe e Pai (Sheila Raynor e Philip Stone): Não tem nomes próprios no filme; são amorosos, vivem em um apartamento humilde com seu filho único e parecem desconhecer o seu estilo de vida criminal.

Peter e Geogie( Michael Tarn e JamesMarcus)  membros da gangue, traem seu líder, tornam-se policiais no final, prendem e torturam Alex mesmo depois de ele ter sido curado.

Sr. Alexander (Patrick Magee): escritor que ficou aleijado após ser espancado pelos droogs; tenta vingar-se de Alex após sua saída da cadeia induzindo o jovem ao suicídio.





Trama e Linguagem

Baseado no romance do escritor britânico Anthony Burgess, a história se passa em uma Londres  futurista, onde o adolescente Alex DeLarge é o líder de seus "droogs" (gíria de origem russa que quer dizer ‘amigos’) Pete, Georgie e Dim. Narrado em primeira pessoa pelo protagonista, o filme apresenta concepção visual muito peculiar, uma cenografia que abusa de temas eróticos, com objetos de cena (painéis e esculturas) representando símbolos fálicos, ações de violência e relações sexuais muito coreografadas, beirando a pornografia.  Emprega imagens violentas e perturbadoras relacionadas à psiquiatria, para refletir sobre a delinquência juvenil, gangues de jovens e outros assuntos sociais, políticos e econômicos. Além disso, o filme usa de um dialeto criado por Burgess em seu livro, denominado Nadsat, uma mistura de inglês, russo e gírias dos anos 60. Na internet pode ser encontrado um pequeno dicionário desta “língua” no link: http://murdoque.com.br/dicionario-nadsat-laranja-mecanica.html
  


Alex tem como prazeres essenciais o sexo, as melodias clássicas de Beethoven, principalmente a Nona Sinfonia e a liderança de sua gangue, com a qual passa os dias matando aulas, ingerindo litros de uma droga chamada ‘moloko’ e divertindo-se com ações de ultra-violência, o que inclui espancamentos, estupros, roubos e assassinatos.
Traído pelos seus comparsas, Alex é preso pela polícia, julgado por homicídio e condenado a catorze anos de prisão.  Após dois anos de cumprimento de sua sentença, o Ministro do Interior chega à prisão procurando cobaias de teste para o tratamento Ludovico, uma terapia experimental baseada no ‘condicionamento da aversão’ para a reabilitar criminosos dentro de duas semanas; Alex prontamente se candidata. O processo envolve  drogar a pessoa, prendendo-a em uma cadeira, apoiando-a com os olhos abertos, e obrigando-a a assistir a imagens de violência.
O tratamento mostra-se funcional e Alex é libertado, mas vai sofrer grandes dificuldades para adaptar-se a um mundo novo e a uma personalidade nova, tendo que enfrentar antigos aliados e aqueles a quem tinha vitimado no passado. 



Uma cena do filme


Aqui o personagem principal Alex, o narrador da história, descreve o tratamento experimental ao qual fora submetido, embalado pela música daquele por quem tinha uma verdadeira adoração:

“No dia seguinte, irmãos, eu realmente me esforcei de manhã e à tarde para fazer o jogo deles e ficar sentado como um maltchique horrorshow. Na cadeira de torturas, enquanto eles mostravam cenas ultraviolentas na tela, não havia trilha sonora. Desta vez só havia música. Aí, eu percebi, em meio a toda dor e náusea que a música que estava trovejando nos altos falantes era Ludwig van. A 9ª Sinfonia, 4º movimento.”  

Uma opinião

Kubrick “fala” naturalmente, através do filme como um todo, do conjunto de seus personagens, e se tivéssemos de apontar algum porta-voz, seguindo suas próprias palavras, teríamos que apontar o capelão do presídio. É ele quem alerta expressamente para os riscos de tentar eliminar a possibilidade de o homem exercitar seu livre-arbítrio, questão apontada por Kubrick como central em suas preocupações.
Houve contudo quem considerasse seu filme uma diluição comercialesca do livro de Burgess. Por certo o diretor não foi tão original quanto o escritor ao tratar da sua própria arte. Este criou no livro um vocabulário sincrético (misturando idiomas e gírias) para a gangue de Alex, que faria inveja a James Joyce. O próprio Kubrick considerou que a sua versão cinematográfica resultou formalmente mais conservadora. Mas equiparar seu filme a qualquer caça níqueis hollywoodiano com maquiagem futurista é uma bobagem. Basta reparar a imperturbável organicidade dos elementos ultra-estilizados a A Laranja Mecânica (cenografia asséptica, personagens de HQ, cenas coreografadas, etc) para que se perceba o raríssimo domínio completo que o diretor tem sobre seu ofício. Encontra-se no filme inúmeros momentos que se fixam permanentemente à memória – como o estupro ao som de ‘Cantando na Chuva’ e orgia ao som da abertura do ‘Guilherme Tell’ de Rossini. São peças com lugar obrigatório dentro do museu imaginário de todo cinéfilo.

(Amir Labaki, em Folha Conta 100 Anos de Cinema)



                                                 Aula 4    -   Blade Runner                               O Caçador de Androides

















EUA - 1982
Direção de Ridley Scott 






          Protagonistas

Deckard (Harrison Ford): caça e elimina androides ilegais na Terra (replicantes) para a Polícia de Los Angeles. Policial egocêntrico e solitário, não vê valor na vida dos robôs. Sua experiência na trama e a paixão que tem por Rachael vai levá-lo a desenvolver a empatia com androides e com todas as coisas vivas.

Rachael (Sean Young): belíssima filha do grande magnata e fabricante de androides Tyrrell, apaixona-se por Deckard em meio à trama. Não tinha consciência de que também era uma replicante e quando fica sabendo, não quer acreditar.      


Roy : líder dos replicantes que invadem a Terra para tentar descobrir quanto tempo de vida ainda tinham. Cruel com os humanos, comete uma série de assassinatos para poder chegar ao seu Criador (Tyrrell). Ao final, se da conta do valor da vida e poupa Deckard da morte, numa emblemática cena de perseguição.     







Trama e Linguagem

Blade Runner é uma das principais obras do cinema para os cinéfilos da década de 1980. Foi baseado em um livro de ficção científica de Philip K. Dick (Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?) narra uma história policial típica dos filmes noir (que fizeram muito sucesso nas décadas de 1930 e 1940), com narrativa em primeira pessoa, ambiente soturno e esfumaçado, recheada de ação, perseguições, vilões e uma mulher misteriosa pela qual o detetive decadente se apaixona. Todos esses clichês cinematográficos, no entanto, são transportados para um futuro em que a Terra está superpovoada e seus habitantes estão colonizando novos planetas com o auxílio de androides.    


       
O thriller de ficção científica de Ridley Scott se passa numa Los Angeles no ano de 2019, uma cidade infernal, claustrofóbica, com um chuva contínua, quando um grupo de replicantes – robôs visualmente indistinguíveis dos seres humanos usados para trabalhos degradantes nas colônias extraterrestes e proibidos na Terra – são perseguidos por Deckard, um blade runner, policial caçador androides. Em meio à caçada, ele acaba se apaixonando pela filha de um poderoso industrial, que depois descobre ser ela também “artificial”.
Mais do que uma ficção científica sustentada apenas em uma trama ligeira e efeitos especiais (que neste caso são muito bons, mas não o recurso narrativo mais importante), o diretor quis dar a Blade Runner um certo fundo filosófico com discussão em torno de temas universais acerca do sentido e da duração da vida, por isso tornou-se um dos filmes mais cultuados da história do cinema.

Uma cena do filme

Deckard luta com o replicante Roy no alto de um arranha-céu, mas depois de ficar pendurado e quase despencar de uma altura imensa, tem a sua vida salva pelo androide, que, debaixo de chuva, faz um discurso final, sentindo a morte (natural) se aproximar:
“- Viver com medo é uma experiência e tanto, não é? É o mesmo que ser escravo. Vi coisas nas quais vocês nunca acreditariam...Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva... Hora de morrer.”   (confira abaixo)



Uma opinião

“Os cenários da megalópole congestionada são extraordinários: é o futuro fuliginosos e retrógrado – o futuro como um mercado negro, composto de aspectos embolados e sórdidos do presente. Filme de ficção científica com cara própria, não pode ser ignorado e tem seu lugar na história do cinema. Coloca-nos nessa cidade que é um labirinto de linhas tortas, com sua sensação pós-humana, nos mantém convencidos de que vai acontecer alguma coisa ruim e de que fazemos parte dessa atmosfera em decomposição.”
(Pauline Kael, 1001 Noites no Cinema – Cia das Letras)




AULA 5 - Cabra Marcado para Morrer





















Brasil -1987
Direção de Eduardo Coutinho - 119 min.






O Diretor 

Eduardo Coutinho (1933 – 2014), um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro, teve uma formação que passou pelo cinema, teatro e jornalismo, tendo inclusive cursado a faculdade de Direito em SP. Seu trabalho é
caracterizado pela profundidade e sensibilidade com que aborda problemas e aspirações da grande maioria marginalizada, seja em favelas, no sertão ou na boca do lixo. Dentre seus principais filmes estão Santo Forte (1999), Edifício Master (2002) e Jogo de Cena (2007). Morreu tragicamente em fevereiro de 2014, assassinato a facadas pelo próprio filho.


Trama e Linguagem

Coutinho nasceu em São Paulo e chegou a estudar na faculdade de Direito do largo S.Francisco, nos anos 50 mas não concluiu, ligando-se ao teatro e ao cinema ainda na juventude. Na década seguinte, integrou-se ao Centro Popular de Cultura da União dos Estudantes e começou a trabalhar no projeto que seria "Cabra Marcado Para Morrer".
Quando o projeto começou, no início dos anos 1960, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários em 1962. O elenco seria composto por atores amadores, habitantes daquela comunidade e a viúva de Teixeira, Elisabete, seria interpretada por ela mesma. 



Quando finalmente o cineasta conseguiu os recursos para a filmagem, produzida pelo Centro Popular de Cultura da UNE e o Movimento de Cultura Popular (PE), já era 1964. No meio das gravações, o projeto foi interrompido pela ditadura. Imagens e câmeras foram perdidas, membros da equipe foram presos ou tiveram de fugir, mas uma parte do material filmado foi preservado.
Forçado a abandonar o projeto, Coutinho passou a integrar a equipe do programa "Globo Repórter", da Rede Globo. Lá descobriu a vocação para o documentário, deixando para trás os filmes de ficção que, anos depois, renegou como parte desinteressante de sua filmografia.
Nos anos 1980, após a abertura política, Coutinho retomou o projeto de "Cabra Marcado para Morrer", combinando diferentes tempos narrativos: as imagens restantes do filme inicial de 1964 e novas gravações com os personagens, que reencontrou anos depois. O resultado foi um dos melhores e mais importantes documentários da história do País.

Este filme foi realizado em dois momento distintos. A primeira parte, com imagens ainda em preto e branco, começou a ser feita em 1964, quando através de depoimentos o diretor queria contar a história de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, assassinado dois anos antes.
Em meio às filmagens, ocorreu o golpe militar de março de 1964 e o início da ditadura. Forças policiais cercaram a vila de Sepé (PB) e prenderam toda a equipe de filmagens. Coutinho foi acusado de comunismo e teve de interromper o projeto por mais de vinte anos. Em 1986, voltou ao sertão nordestino e localizou diversos depoentes na primeira do filme, inclusive a a viúva do líder camponês que tinha vivido na clandestinidade durante o Regime Militar (1964-85). Nas duas partes, a questão da terra e a pobreza dos sertanejos nordestinos são os principais temas da obra.






Uma fala do filme

Mostrando as imagens da década de 60, o diretor narra como surgiu a ideia para o seu documentário:

(clique  acima e assista os primeiros minutos do filme,que contém a fala citada). 

Aumento do foro (aluguel), trabalho obrigatório e sem pagamento, despejo sem indenização pelas benfeitorias e lavouras, uso da violênciapelosgrandes proprietários de terras.Nalutacontra tudo isso JoãoPedro forjou a unidade dos camponeses da região. Foi nesse dia que nasceu a ideia de umfilmedelonga-metragem sobrea vida de João Pedro Teixeira que se chamaria “Cabra Marcado para Morrer”. Produzido pelo CPC-UNE e pelo Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, o filme seria realizado nos próprios onde a história havia ocorrido. Dois anos depois estava tudo pronto para o início das filmagens... Ma sem 15 de janeiro de 1964 houve um conflito perto de Sapé envolvendo policiais e empregados de uma usina, de um lado e camponeses, do outro. Onze pessoas morreram no conflito. A região foi tomada pela Polícia Militar da Paraíba, tornando impossível a filmagem no local. Na emergência fui obrigado a transferir as locações e encontrei o lugar ideal em Pernambuco, no Engenho Galileia, onde havia nascido a primeira Liga Camponesa, em1955.



Uma Opinião:

Talvez esse tipo de procedimento (de o diretor conduzir a trama do documentário através das entrevistas) tenha começado em "Cabra Marcado para Morrer", quando o cineasta retorna, em 1981, à cidadezinha que tivera de abandonar às pressas em 1964, quando realizava um filme sobre as Ligas Camponesas. Ali é essencial o contato com as pessoas, a maneira como aos poucos se retoma a confiança de pessoas perseguidas durante a ditadura. É essencial, mas não é central. Central é o tempo, as mudanças que afetaram essas pessoas e o vilarejo quase fantasma, onde em outros tempos se forjava a rebelião camponesa. Isto é que o filme consegue captar: a passagem do tempo, seus traços marcados nos rostos, nas atitudes, no próprio medo.

(Jean-Claude Bernadet, Folha Conta 100 Anos de Cinema, ed. Imago -1995)